sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Quelle est la visée du libertinage sadien: nature ou anti-nature?


 (continuação do post de 23/11/14- suite de l´article de 23/11/14)

Afin de discipliner  les passions, Rousseau crée aussi tout un système de contraintes. On verra que chez Sade le but sera inverse. Il faut “briser les fers” se débarrasser de tous les préjugés par exemple l´amour  filial.

Le genevois ajoute encore: “... ce qui rend l´homme essentiellement bon est d´ avoir peu de besoins.”

La théorie développée dans l´Emile s´approche de l´Ethique

 d´ Épicure dans la mesure où celle-ci nous enseigne à se suffire à soi-même, à n´avoir que des désirs “naturels et nécessaires” pour mener une vie heureuse.

         Comme le philosophe grec, Rousseau croit qu´on atteint le bonheur à condition de vivre  en accord avec la nature et de préserver cet état en empêchant le déreglement de l´amour propre, de l´égoísme, des ambitions et des envies.

         Cette position va de pair  avec la vision de Diderot exprimée par le vieillard thahitien quand il s´adresse à Bougainville: “… nous  sommes innocents, nous sommes heureux; et tu ne peux que nuire notre bonheur. Nous suivons  le pur instinct de la nature; et  tu as tenté  d´effacer de nos âmes son caractère. Ici tout est à  tous: et tu nous a prêché je ne sais quelle distinction  du tien et du mien.” Supplément au voyage de Bougainville, p. 148.

         On lit dans l´Émile: “Le vrai contentement n´est gai ni folâtre”. Là encore on s´approche du but épicurien: l´ataraxie, c´est- à-dire, l´absence de trouble qui assure à l´homme le bonheur. On trouvera le plaisir en menant une vie vertueuse.

         Or, Sade postule, lui-aussi, le plus strict respect de la nature. La devise des épicuriens et des stoîciens “vivre en accord avec la nature” pouvait même servir de sous-titre au pamphlet “Français encore un effort  si vous  voulez être républicains.”

         Cependant, le respect de la nature chez le marquis de Sade implique l´abandon de toutes les chaînes, de tous les préjugés. L´homme devra laisser livre  cours à ses impulsions de toutes sortes.

         Chez Rousseau, dans l´Émile, tout le système d´éducation vise   à rendre son élève incorruptible et résistant aux désirs voluptueux. Mais tous deux défendent  une théorie  qui a pour fin  que l´homme atteigne le bonheur.

         Nous aborderons, donc, une des questions fondamentales et communes aux deux penseurs: l´importance qu´ils accordant à l´éducation. En effet, ils élaborent des programmes pédagogiques. Le premier aura le souci d´une morale de la vertu, chez  le second on a affaire à une  anti-morale, à une instruction ayant comme but le vice dans lequel  peut s´épanouir le bonheur. ( Autant qu´on puisse parler du bonheur chez les personnages sadiens, “bonheur” souvent fondé sur le malheur fait aux autres). (continua).

domingo, 23 de novembro de 2014

Quelle est la visée du libertinage sadien: nature ou anti-nature?

Redigi o texto abaixo em 1993 como trabalho de aproveitamento para a disciplina “Philosophie et libertinage” (“license”)  sob a responsabilidade do professor Phelippe Berthier  da Université de Paris III.

 

 

            En premier lieu nous essayerons de saisir ce que signifie la notion de nature chez Sade. Ensuite il sera utile d´expliquer si elle se rapproche ou se différencie de la vision de Rousseau et de Diderot et en quoi.Finalement on cherchera à montrer dans quelle mesure le système sadien peut se légitimer en dépit de tous les paradoxes et ambiguités qu´il comporte.
              La nature, cette idée maîtresse du XVIIIème, reçoit une interprétation spécial chez  Rousseau. Que peut-on comprendre quand il dit: “Obéissons à la nature….?” (Émile, p. 375) ( avant d´ajouter: “...nous connaîtrons avec quelle  douceur elle règne, et quel charme on trouve, après l´avoir écoutée, à se rendre un bon témoignage de soi”). Quand il parle de “l´état de nature”, il s´agit là, si nous voulons résumer en quelques mots, d´un état où l´homme a vécu avant l´apparition de la civilisation, une sorte d´âge d´or idylique où il est heureux.
          L´homme “naturel” a, alors, une répugnance instinctive à voir souffrir et  à faire souffrir. Il n´a aucune agressivité contre ses semblables  (s´il en rencontre). Au contraire, il se caractérise par sa capacité d´identification, son instinct de commisération.
           On verra que Sade reprend en quelque sorte l´idée de Rousseau selon laquelle l´homme naturel est en deça de toute  relation sociale et de toute loi. Mai Sade inverse les données puisque pour lui c´est la violence qui est naturelle à l´homme.
             En effet, si pour le premier, la vie civilisée va corrompre cet prétendue “bonté” originelle, chez le second, l´homme est originallement pervers.
            On lit dans le livre IV de l´Émile: “La source  de nos passions, l´origine , et principe de toutes les autres, la seule qui naît avec l´homme et ne le quitte jamais tant qu´il vit, est l´amour de soi: passion primitive, inée, antérieure à toute autre (...)”, p. 275.
         Le philosophe nous explique encore que les autres passions ne seront que modifications de celle-ce. Mais,  il sera         nécessaire de bien maîtriser l´amour de soi pour  qu´il ne devienne pas amour-propre.
         Pour que l´homme soit satisfait de son état, on l´empêchera de se comparer avec les autres sous peine  de voir naître “ des passions haineuses et irascibles” Ibid., 277. (continua)

Colóquio "Sade e o Limite: 274 anos de transgressões"

Colóquio Internacional "Sade e o Limite: 274 anos de transgressões", dias 15, 16 e 17 de dezembro na Biblioteca Mário de Andrade - São Paulo. 

Informações sobre programação e inscrições no site do evento:
http://coloquiosade.wix.com/sade

domingo, 24 de agosto de 2014

A cientista e o poeta


 

Já comentamos brevemente neste blog sobre Émilie de Châtelet- considerada a mulher mais brilhante do século XVIII. Como a maioria das moças de sua época, Émilie casou-se aos 18 anos. A união com o marquês de Châtelet não se baseava no afeto, mas em interesses familiares- assim como muitos matrimônios do período. Nesse contexto, não era incomum marido e mulher terem outros relacionamentos, desde que fosse observada a discrição. O marquês viajava muito e acumulava aventuras extraconjugais, a bela esposa, por seu turno, não se furtava aos encontros clandestinos. Émilie namorou, entre outros, Richelieu – conhecido por suas conquistas. Há quem acredite, aliás, que a personagem Valmont de Ligações Perigosas (1782) - o extraordinário romance epistolar de Choderlos de Laclos-  tenha sido inspirada na figura do grande marechal. O namorado mais célebre e o grande amor da jovem prodígio foi nada menos que Voltaire. Do momento que se conheceram, até 1749, ano da morte de Émile, o casal passou a maior parte do tempo unido. Voltaire foi viver com Émilie no castelo de Cirey (que pertencia à família do marquês de Châtelet). Nessa morada, cada um ficava em seu aposento estudando e se encontravam apenas à noite. Ela foi responsável pelo interesse de Voltaire por Newton. A propósito, o meio leigo parisiense começou a interessar-se pelo físico inglês graças ao casal de estudiosos. A história de amor entre o poeta dramático e a cientista é contada de forma minuciosa por David Bodanis em seu Mentes Apaixonadas: Émilie du Châtelet e Voltaire- o grande caso de amor do Iluminismo. Tradução de Carolina de Melo Araújo. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2012.     

domingo, 22 de junho de 2014

“Dos Delitos e das Penas”: Flagrante atualidade de Cesare Beccaria (1738- 1794)


 

            Foi em 1764 que o jovem milanês Cesare Beccaria publicou “Dos Delitos e das Penas”, uma das mais importantes obras do século XVIII da Itália- texto fundamental para as Luzes na França. Voltaire, Rousseau, Diderot, d´Alembert e Morellet, entre outros, leram e comentaram o texto inovador.  A questão que se colocava logo no início do livro e que criaria os mais acirrados debates, diz respeito ao “direito de punir”, cuja justificativa se impunha aos olhos do autor. Na esteira de Thomas Hobbes, adere ao pressuposto de que em seu estado natural, os homens viveriam mergulhados na incerteza de uma guerra interminável, advindo, assim, a necessidade de abdicar de uma parcela da própria liberdade em troca de segurança: “A agregação dessas mínimas porções [de liberdade] possíveis forma o direito de punir, tudo o mais é abuso e não justiça [...]” (BECCARIA, 2005, p. 43). Ora, aceitar o “direito de punir” implicava pelo menos quatro consequências. Primeiro, os magistrados não poderiam aumentar uma pena previamente estabelecida pelo legislador, já que este representa toda a sociedade unida pelo contrato social, ao passo que o magistrado representaria apenas uma parte da sociedade. A segunda consequência diz respeito à igualdade perante as leis. Nenhum cidadão, sob qualquer pretexto, poderia eximir-se de cumpri-las. A terceira concerne a recusa da atrocidade das penas, porque seria contrária à natureza do próprio contrato social. Por fim, a quarta consequência reside na impossibilidade do juiz em interpretar as leis. O jovem criminalista esclarece seu ponto de vista ressaltando que a desordem advinda de uma obediência fiel à lei é menos perniciosa que a derivada de sua interpretação.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

O artigo "Uma velha praga" de Monteiro Lobato


 

Um dos mais fascinantes, polêmicos e multifacetados autores brasileiros do século XX foi, sem dúvida, Monteiro Lobato. O estupendo sucesso da obra infantil do escritor paulista deixou na sombra sua atuação em outros domínios. O autor de Cidades Mortas esteve à frente de campanhas sanitárias, batalhou pelo voto direto, revolucionou o mercado editorial do Brasil e lutou tenazmente pela nossa auto-suficiência em ferro e em petróleo. Todas essas facetas, e muitas outras, serão exploradas nesse espaço. Hoje, gostaria de iniciar uma série de postagens para  lembrar a construção do emblemático Jeca Tatu e as controvérsias que gerou.  Em 1911, Lobato herda a fazenda Buquira de seu avô, o Visconde de Tremembé, decide deixar a pacata vida de promotor em Areias a fim de tentar a sorte como fazendeiro. Interessa-se de fato pela nova função, faz pesquisas sobre como melhorar a produção de café e milho. Também estuda a respeito do cruzamento de animais. Ao longo dos meses, porém, nota que seus esforços se deparam com um inimigo tenaz: o homem do campo. Em vez de respeitar a terra que lhe dá o alimento, o caboclo perpetua prática institucionalizada no interior paulista- as queimadas. Aos poucos a terra vai se tornando infértil.  Segundo o ponto de vista do então fazendeiro, o homem do campo não faz grandes esforços por julgar que não vale a pena. Assim, prefere permanecer com seu chapéu de palha, de cócoras, fumando cachimbo.  Lobato compara-o ao cogumelo parasitário da madeira podre, denominado por sua mãe de “urupês”. Em 1914, envia o artigo “A velha praga” ao jornal O Estado de São Paulo. Nesse texto, apresenta o homem da roça: “Este funesto parasita da terra é o CABOCLO, espécie de homem baldio, seminômade, inadaptável à civilização, mas que vive à beira dela na penumbra das zonas fronteiriças. À medida que o progresso vem chegando com a via férrea, o italiano, o arado, a valorização da propriedade, vai ele refugindo em silêncio, com o seu cachorro, o seu pilão, a pica-pau e o isqueiro, de modo a sempre conservar-se fronteiriço, mudo e sorna. Encoscorado numa rotina de pedra, recua para não adaptar-se.” Na excelente biografia “Monteiro Lobato: Furacão na Botocúndia” de Carmen Lucia de Azevedo, Marcia Camargos e Vladimir Sacchetta, lemos: “Monteiro Lobato é, acima de tudo, arguto crítico social, um homem preocupado com os destinos do seu país. E expõe, sem mistificação, a conduta do agente deletério, habitante das zonas limítrofes do mundo civilizado, onde jamais logra penetrar. (1997, p. 58). “Uma velha praga” saiu em destaque no Estado de São Paulo e fez enorme sucesso. Veremos os desdobramentos das polêmicas do incendiário artigo em postagens futuras.  

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Ecos de Cesare Beccaria na França

No final de 1765, o abade Morellet publicou sua tradução de "Dos Delitos e das Penas". Em carta a Beccaria de fevereiro do ano seguinte, o tradutor desculpa-se pelas alterações que fez na estrutura-nova ordem na distribuição dos capítulos, transferência de frases de uma parte para outra, além de remanejamento de explicações do corpo do texto para notas de rodapé- e justifica: "Creio ter seguido uma forma mais regular, mais fácil para os leitores de meu país e  mais próxima ao aspecto de nossos livros" ("Je crois avoir suivi une marche plus régulière, plus aisée à suivre, et qui en tout est plus conforme au moins au génie de ma nation, et  à la tournure de nos livres"). Em seguida, afirma que o resultado final tinha agradado aos amigos d´Alembert, Diderot e Hume. De fato, a tradução francesa foi tão apreciada que se tornou uma espécie de "vulgata".
A obra, que chegava a um público mais vasto, graças à tradução, fora saudada como contribuição fundamental para as discussões sobre o papel do Estado na vida dos cidadãos. Tratava-se de uma exposição densa e instigante, composta de quarenta e sete capítulos curtos, nos quais o criminalista discutia os tipos de delitos mais frequentes e propunha a forma de puni-los e evitá-los. O livro versava, igualmente, sobre os diferentes tipos de provas e formas de julgamento, sobre as acusações secretas, as questões relacionadas à honra, infâmia, duelos, contrabando, ociosidade, entre outros temas. E condenava a tortura e a pena de morte, que eram institucionalizadas no Antigo Regime. Vislumbrava-se, na obra, a preocupação em atender aos interesses da maioria- ponto basilar da análise beccariana- e não mais aos caprichos de uma casta. Além disso, o autor defendia com veemência que um código penal deveria estar ao alcance de todos porque quanto maior o número de cidadãos que compreendessem as leis, menos frequentes seriam os delitos. A partir de uma reflexão sobre as três fontes dos princípios morais e políticos reguladores dos homens, quais sejam: a revelação, a lei natural e as convenções factíveis da sociedade- que não deveriam entrar em contradição entre si-Beccaria ratifica a ideia de que a justiça divina e a justiça natural são, por sua própria essência, imutáveis e constantes, ao passo que a justiça humana estaria sempre sujeita às mudanças. Quando se discute a matéria pública, explica-nos, esses princípios não podem ser confundidos, sob pena de chegarmos a conclusões equivocadas. O filósofo constata, ainda, o desinteresse do público e dos pensadores a respeito da crueldade das penas e assevera que as leis nunca tinham sido ditadas por um observador imparcial da natureza humana; tem consciência, assim, de que seu livro representa uma etapa inovadora na jurisprudência. ( Nos próximos dias voltarei a escrever sobre o atualíssimo livro de Beccaria publicado em 1764. O filósofo e criminalista italiano contava apenas 27 anos. Duzentos e cinquenta anos após a primeira edição, os debates sobre a obra continuam acalorados).   


terça-feira, 18 de março de 2014

Wagner Madeira apresenta o enxadrista Monteiro Lobato

Em 31 de março de 2010, comentei rapidamente neste blog a paixão de Monteiro Lobato pelo jogo dos reis, sem me estender sobre o tema. Descobri, recentemente, o artigo intitulado “Monteiro Lobato, enxadrista” no qual, Wagner Martins Madeira, mestre da Federação Internacional de Xadrez (FIDE), brinda-nos com um delicioso passeio pelas cartas do autor de “Urupês” endereçadas ao escritor mineiro Godofredo Rangel- e publicadas em A Barca de Gleyre (1948). Madeira tece um bem humorado perfil de Monteiro Lobato, em meio a considerações sobre a vida do escritor em Areias (onde era promotor), sobre as polêmicas nas quais se envolveu, e sobre seu estilo inconfundível. Discorrendo tanto a respeito das escolhas estratégicas do autor, por exemplo, a opção de “abertura” (o primeiro movimento feito pelo jogador que detém as peças brancas) quanto à confusão que às vezes se estabelecia na correspondência (assim como seu parceiro Rangel, Lobato frequentemente se esquecia da disposição das peças do tabuleiro na qual deveriam continuar). O genial criador de Emília, conta-nos Madeira, via no jogo de xadrez um antídoto contra o tédio. O artigo está disponível em http://revistapandorabrasil.com/revista_pandora/jogo/wagner.htm

segunda-feira, 17 de março de 2014

Emanuel Lasker e a psicologia no xadrez










Emanuel Lasker (Berlinchen, 1868-Nova Iorque, 1941) de família judaica, dedicou-se à matemática, à física e à filosofia. Sua tese de doutorado versou sobre a "Teoria de espaços vetoriais" e constitui notável contribuição na área. Albert Einstein, amigo próximo, criticava-lhe o tempo desperdiçado com as lides enxadrísticas. Foi, contudo, graças ao jogo-ciência que Dr. Lasker imortalizou seu nome, tornando-se um dos maiores enxadristas de todos os tempos, conseguindo manter o título de campeão por vinte e sete anos.
Em 1894, Lasker derrotou Steinitz (1836-1900), o então campeão mundial, em um match disputado em Nova Iorque, Filadelphia e Montreal. O jovem alemão contava vinte e seis anos e manteve o título até 1921, quando foi derrotado pelo cubano José Raul Capablanca.
Lasker impressionava a todos pela forma que desequilibrava as partidas, escolhendo, via de regra, um lance considerado inferior para desestabilizar o adversário. O xadrez, como sabemos, não implica somente cálculo, mas uma sólida concepção estratégica, no sentido militar do termo. Tal concepção é magistralmente demonstrada no livro intitulado O Bom Senso no Xadrez, publicado pela primeira vez em 1917.

Eis, a seguir, a tradução do prefácio e da primeira conferência do Dr. Lasker. Proponho, hélas, uma tradução de segunda mão, sendo o original em inglês Common Sense in Chess e o meu exemplar: Le bon sens aux échecs, traduit de l´anglais par Pierre Latour, Paris, édition Payot/Rivages, 1994.






Prefácio

Eis um resumo de doze conferências dadas diante de um auditório de jogadores de xadrez londrinos, na primavera de 1895. Podemos considerá-las como uma tentativa de tratar de todas as fases de uma partida de xadrez com a ajuda de princípios gerais. Os princípios expostos são deduzidos de reflexões relacionadas à natureza do xadrez, enquanto luta entre dois cérebros, e sua concepção repousa sobre fatos simples. Sua aplicação está ilustrada por posições adaptadas a esse fim e susceptíveis de apresentarem-se no tabuleiro. Meu objetivo foi reduzir o número de regras sem prejudicar a clareza. Perceberemos que elas têm alguma semelhança entre si e por isso não foi difícil reduzir ainda mais seu número. Com efeito, elas poderiam finalmente ser reunidas em um só princípio geral, que está na base não somente do xadrez, mas de todos os tipos de combates. Este princípio está suficientemente exposto aqui, mas ele é tão geral na sua concepção e a dificuldade de exprimir toda a extensão do seu significado é tal que não me aventurei a formulá-lo. Em uma próxima obra, e esta já prepara o terreno, espero ser capaz de ilustrar esse princípio e sua capacidade de mostrar a estrita relação dos fatos entre si. Também deixarei para o próximo livro o debate sobre alguns pontos que solicitam exame mais sutil como, por exemplo, todas as questões relativas às manobras do rei e à troca de peças.
As partidas e posições deste livro são relativamente pouco numerosas, mas foram escolhidas com cuidado. Eu aconselho o jogador não somente a esforçar-se para ler, mas a estudar e impregnar-se do conteúdo por meio de um trabalho constante. As regras que deduzi são, me parecem, muito plausíveis. Isso não deve enganar o jogador, que compreenderá mais claramente o sentido se fizer um esforço de não se mostrar cético e exigente quanto às provas.
No que concerne às análises das partidas ou das aberturas, tentei ser breve e preciso. As análises detalhadas, embora pouco numerosas, são fiáveis, creio eu. O método que consiste em enumerar todas as variantes possíveis, ou prováveis, foi abandonado em prol de uma análise que leva em conta, ao mesmo tempo, as variantes principais e os princípios gerais. A expressão e o estilo são de um conferencista. Não consegui torná-los mais perfeitos como desejava e solicito por isso a indulgência do leitor. E. L.
Primeira Conferência
Senhores, costuma-se começar pelas definições, mas estou certo de que todos vocês conhecem tão bem o essencial da história, das regras e das características do jogo de xadrez, que me permitirão mergulhar imediatamente in medias res. O xadrez foi apresentado, ou, eu diria, apresentado de forma errada, como um jogo que não poderia visar um objetivo sério, mas feito pelo simples prazer de ocupar uma hora de ócio. Se fosse apenas um jogo, o xadrez jamais sobreviveria às grandes provas a que foi confrontado ao longo de sua existência. Alguns apaixonados elevaram o xadrez à classe de uma ciência ou arte, o que ele não é; mas sua caracterísitica principal parece ser o que a natureza humana em geral muito aprecia- um combate. Não um combate que afagaria os nervos das naturezas grosseiras, no qual o sangue jorra e os golpes desferidos deixam traços visíveis sobre os corpos dos combatentes, mas um combate onde os elementos científico, artístico e puramente intelectual oscilam de maneira indissociável. Deste ponto de vista, uma partida de xadrez torna-se um todo harmonioso do qual me esforçarei para descrever as grandes linhas ao longo destas conferências.
As condições exigidas para jogar xadrez são um tabuleiro de sessenta e quatro casas e dois indivíduos. Nós temos, por conseguinte, uma grande vantagem sobre o general que deve conduzir seu exército em campanha: nós sabemos onde encontrar o inimigo e as forças das quais ele dispõe. Temos a agradável satisfação de saber que, no que diz respeito às forças materiais, teremos igualdade com os adversários. Nossa primeira decisão, no entanto, será exatamente análoga à de um comandante. Em primeiro lugar, mobilizaremos nossas tropas, para que elas estejam prontas ao ataque tentando ocupar as linhas importantes e as casas totalmente livres. Este procedimento não tomará, em regra geral, mais de seis lances, como veremos na sequência. Se nos omitirmos de fazê-lo, nosso adversário aproveitará a ocasião que lhe teremos oferecido, atacará rapidamente qualquer ponto vital e, antes que nos recobremos, a batalha estará terminada.
Permitam-me, para ilustrar minhas afirmações, de rever algumas partidas miniaturas bem conhecidas, nas quais os erros e suas sanções aparecem claramente.

1.e4 e5. 3Cf3 d6 3.Bc4 h6

Até aqui, com exceção do último lance, as pretas jogaram razoavelmente bem. Abriram linhas para seus dois bispos e para a dama e agora deveriam desenvolver o cavalo em c6. Em vez disso, temendo algum ataque prematuro, elas fazem um lance inútil que não reforça nenhuma de suas peças.
4. Cc3 Bg4
Um erro. Os cavalos devem ser desenvolvidos primeiro, os bispos em seguida.
5. Cxe5 Bxd1
6.Bxf7+ Re7
7.Cd5++


( tradução ALRBedê - continua)

segunda-feira, 3 de março de 2014

"As grandes paixões" um conto de Guy de Maupassant

– Então, a senhora se entedia? – Infelizmente sim, de forma terrível, senhor. – E isso vem acontecendo há muito tempo? – Oh, há muito tempo! – Há um ano? – Mais ou menos. – A senhora foi ver “Georgette”? – Fui. – Gostou? – Oh! Fascinante, fascinante! – E “Speranza”? – Vi também “Speranza”. É um balé delicioso. – A senhora leu “Tartarin nos Alpes”? – Claro, e no primeiro dia. – Agradou-lhe? – Muitíssimo. Primeiro, tinha uma paixão por “Tartarin”. Nada nunca me divertiu tanto como esse livro: é tão engraçado, tão espirituoso, tão irreverente. Apesar da minha admiração pelos romances de Daudet, ainda prefiro “Tartarin”, porque chego a chorar de tanto rir todas as vezes que o abro. Veja você, jamais se teve tanto espírito. E é tão divertido ver “Tartarin nos Alpes” depois de vê-lo no deserto! – Então a senhora passou uma noite excelente escutando “Georgette”, uma noite excelente vendo “Speranza”, e um dia excelente lendo “Tartarin”. E consegue se entediar? – Sim, muito tédio! O senhor acha então que isso é suficiente para ocupar minha vida, ter algumas horas de lazer de vez em quando? – Eu, senhora, acho dificílimo não somente obter algumas horas, mas alguns minutos de distração. Ora, sexta-feira a senhora irá a “Sapho”. No dia seguinte lerá o delicioso volume de novelas que Octave Mirbeau acaba de publicar: “Cartas de minha cabana” e no dia seguinte ainda “O Alpe homicida” de Paul Hervieu; e ficará ainda mais interessada quando reencontrar, nesse livro, os Alpes nevados onde “Tartarin” acaba de passear. E em breve terá outros espetáculos e outros livros, e jantares, e saraus, e mil coisas diversas que lhe conduzirão à primavera. E a senhora consegue se entediar? – Sim, sinto tédio. Acho-o insuportável por não me acreditar. – Acredito, minha cara amiga, apenas engana-se de palavra; não deveria dizer: sinto tédio, mas: não amo ninguém. Para vocês mulheres, tudo se limita ao amor. Amar ou não amar, eis o que importa. Quando vocês amam, a terra torna-se o paraíso terrestre, a vida um encanto; e quando vocês não amam, o universo e a vida tornam-se um inferno. – É verdade! – Claro que é verdade! E vocês consideram o amor como a mais bela, a mais generosa, a mais profunda, a mais poderosa das paixões. – Sim, concordo. – Porém, minha cara amiga, o amor, na verdade, é o mais mesquinho, o mais fraco, o mais ligeiro e o menos durável das fantasias que arrebatam o coração humano. – Meu Deus, como o senhor é tolo! – É possível! Tolo, mas correto. Raciocinemos. Conhece-se a força de uma locomotiva pelo número de vagões carregados que ela pode puxar, não é? Da mesma forma podemos medir a força de uma paixão pelos feitos que o homem realizou por ela. Para começar, a qualidade principal de uma paixão é a duração. Ora, o amor é essencialmente limitado. Quantos casos podemos citar em que ele durou uma vida inteira? O amor muda seu alvo várias vezes ao longo de uma existência e para definitivamente quando os cabelos embranquecem. Trata-se, antes, de um apetite do que de amor, um apetite que varia segundo as idades e que incide sobre várias pessoas. Ora, minha cara amiga, seria fácil provar que o jogo arruinou mais homens que o amor, e que o álcool matou mais gente. Então, as cartas e a embriaguês são duas paixões superiores. De fato, não podemos fazer nada de mais forte, para provar uma obsessão, que dar seu dinheiro e sua vida: as duas coisas mais preciosas que temos. Ora, se a estatística prova que o homem arruína-se de forma mais natural e com mais facilidade pelo bacará que por uma bela mulher, que ele resiste menos às cartas que aos belos olhos, que ele é atraído mais irresistivelmente pelos carteados que pelas alcovas, que ele deixa com mais paixão seus últimos centavos sobre uma mesa verde do que sobre as mãos delicadas de uma mulher, a dúvida não nos é mais possível. Aqueles que se arruínam por mulheres são raros hoje em dia, enquanto aqueles que se arruínam pelo jogo são numerosos. Quanto aos que se matam pelo amor ou por amor, não vemos mais. Aqueles que se matam pelo álcool são inúmeros. A senhora se surpreende, não é, minha cara amiga, que dois braços abertos não tenham tanto atrativo quanto um copinho de cachaça? Mas reconhecerá também que dois braços fechados são um instrumento de morte tão rápido e tão certo, quando a gente se entrega completamente, como um líquido amarelo ou verde bebido em excesso? Ora, a partir do momento que se morre mais de garrafa que do beijo, o que concluir? – O senhor é um grande estúpido! Não se pode nem mesmo responder a tais bobagens! – Vou mais longe. Afirmo que estas três paixões: o álcool, o jogo e o amor, consideradas temíveis porque são perigosas e provocam catástrofes, são bem menos vivas na realidade, bem menos potentes e bem menos intensas que a pesca, a caça e o bilhar! – Cale-se. O senhor irrita-me. – Oh! Eu compreendo-a. O coração da mulher exalta-se pelas paixões poéticas, aceita as paixões dramáticas e indigna-se com paixões inofensivas e burguesas, as mais tenazes, as mais vivas, as mais absorventes de todas. – Minha cara amiga, este homem calmo, com um chapéu de palha e sentado à beira de um rio, no qual ele mergulha uma bóia na ponta de uma linha, é o mais ardente dos apaixonados. Nada cessará seu invencível amor, nada! Quando Paris ardia em chamas, incendiada pela Comuna, quando o canhão fazia tremer as paredes, quando as balas voavam pelas ruas como moscas, quando os corpos baleados serviam de asfalto às ruas, quando dos córregos corria sangue em vez de água, contaram-se quarenta e sete homens, quarenta e sete sábios ou quarenta e sete loucos, sentados tranquilamente ao longo das margens do Sena, desde a Ponte du Jour até as Tulerias desabadas sob as chamas. Que lhes importava Paris em fogo, a Comuna vencida, a Pátria sangrenta, a guerra civil após a invasão prussiana, a estes homens que só tinham atenção para seus “flutuadores de cortiça?” A morte os ameaçava de todos os lados. As balas disparavam sobre suas cabeças, e seus corações batiam de esperança quando um peixe mordia a isca. Eu poderia citar cem exemplos tão evidentes como esses. A caça! Qual é o homem que faria por uma mulher ou mulheres, durante toda sua vida, o que um caçador faz por sua caça? Pense nas viagens em charrete, nas noites frias, para ir matar alguns coelhos, outras noites passadas nos pântanos, sob uma cabana de palha, nas chuvas que caem durante estações inteiras, nas prodigiosas fatigas, nas más refeições das fazendas, nas caminhadas intermináveis. Existe algum apaixonado que suportaria isso por sua amante? Existe um jogador que afrontaria cansaços e privações para um encontro num banco no fundo de um bosque? Existe um bêbado que faria vinte léguas sob a geada para beber um copo de fino champanhe, como faz um caçador para atingir uma galinhola? – Então? Então? Então? – Quanto ao bilhar? Oh, o bilhar? O homem apaixonado pelo bilhar só vê a vida, a política, a arte, a guerra, o amor sob a forma de três bolas de marfim, correndo uma atrás da outra, num campo de feltro verde. Ele divide a humanidade, não em homens e mulheres, em militares e civis, em aristocratas e democratas, mas em seres que jogam ou que não jogam bilhar. Vignaux é o seu papa, seu papa majestoso, misterioso, todo-poderoso, sobre-humano! Quando bebe, quando come, quando anda, quando se repousa, quando tosse, quando se assoa, quando ri, quando chora, quando cospe, quando se veste ou tira a roupa, ele só pensa no bilhar, e vê sem cessar, em tudo, as duas bolas brancas e a bola vermelha vagabundeando sob o empurrão de um taco pontudo, jogando uma eterna partida que só acabará no julgamento final! Esse homem acorda e vai ao boteco, passa o dia inteiro ao redor do móvel quadrado que contém e limita todos os seus desejos e todas as suas esperanças, só para na hora obscura em que o garçom lhe manda embora, apagando o último bico de gás. Oh! Eis uma paixão minha cara amiga! – Meu caro, o senhor vai forçar-me a lhe expulsar! – Não, não precisará chegar a este ponto. Vou embora. Mas...escute-me. A senhora crê na Providência, certo? – É claro! – Bem, vou rogar à Providência que lhe envie o que pede, o amor! O amor de um homem. Mas de sua parte, minha cara amiga, rogue a Deus, seu Deus, de conceder-me uma graça, uma graça infinita. – Qual? – Não advinha? Explico-lhe. Eu me entedio tanto quanto a senhora, e mesmo mais, muito mais! Bem, suplique ao céu de colocar no meu coração, no meu pobre coração vazio e sem esperança, o amor... o amor pela pesca ou pelo bilhar! É a única graça que peço a Deus. Tradução: Ana Luiza Reis Bedê

sábado, 1 de março de 2014

Maupassant: um "meteoro" nas letras francesas

Guy de Maupassant nasceu dia 5 de agosto de 1850 na Normandia (não se sabe se em Fécamp ou em Miromesnil). Primeiro filho de Gustave e Laure. A mãe do futuro escritor era leitora perspicaz, culta, refinada e ciosa da recente partícula “de” que antecede o sobrenome – caução de nobreza reservada a poucos. Laure de Maupassant teve papel decisivo na opção de carreira do filho mais velho. Muito antes de tornar-se contista de renome na França, o jovem Guy escreveu poemas, a peça “Os anos cor - de rosa – Casa turca” -1875 (traduzido em português por Clémence M. C. Jouët-Pastré), entre muitos outros textos que eram submetidos ao crivo do amigo de sua mãe e de seu tio Alfred Le Poittevin (que não chegou a conhecer), nada menos que Gustave Flaubert. A propósito, durante muito tempo, houve quem sustentasse que Maupassant era filho do autor de “Madame Bovary”. O jovem discípulo de Flaubert trabalhou como funcionário público até aproximadamente os trinta anos, dedicando o tempo livre à literatura. A data chave de sua vida foi 1º de fevereiro de 1880, Maupassant recebe carta de Flaubert a respeito de “Boule de Suif” (“Bola de Sebo”) na qual afirmava: “Mais il me tarde de vous dire que je considère Boule de Suif comme un chef-d´oeuvre. Oui! Jeune homme! Ni plus ni moins, cela est d ´un maître” (“Estou ansioso para dizer que considero Bola de Sebo como uma obra-prima. Sim, rapaz! Nem mais, nem menos, foi escrito por um mestre!) Nessa missiva, Flaubert tece comentários precisos justificando sua opinião. Com “Boule de Suif”, publicada na coletânea “Soirées de Médan”, Maupassant tornou-se célebre da noite para o dia- não por acaso afirmou: “Je suis entré dans la vie littéraire comme un météore, j´en sortirai comme un coup de tonnerre” (“entrei para a vida literária como um meteoro e sairei como um trovão”). O brilhante contista morreu em 1893. Seu sucesso não parou de crescer até meados do século XX. Trata-se, ainda hoje, de um dos escritores franceses mais lidos fora da França. No próximo post, publicarei o conto “As grandes paixões” que traduzi – acredito que seja a primeira tradução para o português. Aguardem...

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

"Colóquio Voltaire Filósofo"

Entre os dias 21 e 24 de maio, haverá o Colóquio Internacional “Voltaire Filósofo” na Universidade de Paris Ouest Nanterre La Défense. A organização conta também com a Universidade de Sherbrooke (Canadá) e Universidade de Québec à Trois-Rivières (Canadá). Gostaria de destacar a presença de pesquisadores brasileiros no Colóquio: Maria das Graças de Souza (USP) apresentará a comunicação “Voltaire philosophe de l´histoire: autour de l ´Essai sur les moeurs”, Rodrigo Brandão (Universidade Federal do Paraná) falará sobre “Job, Voltaire et Kant”, Danilo Bilate ( Universidade Federal do Rio de Janeiro) fará comunicação a respeito da “ L´attitude voltairienne chez Nietzsche” e Vladimir de Oliva Mota (Universidade Federal de Sergipe) abordará o tema: “Les fondements divins de la morale chez Voltaire”.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Voltaire: um vil adulador?

Voltaire tinha um pé na aristocracia e outro no “partido dos filósofos”. Devido à faceta de cortesão, recebeu duras críticas de seus contemporâneos e da posteridade. Há quem acredite, no entanto, que a decantada bajulação aos poderosos não passava de mais uma tática voltairiana. Em seu artigo “Histoire et politique: quelques réflexions autour du Parlement de Paris”, Diego Venturino observa: “Com efeito, Voltaire é um falso devoto. Aparentemente entra nos templos da tradição histórica como fiel, mas na verdade destrói suas bases”. Ressalto que até hoje a memória do filósofo sofre tanto com a pecha de adulador quanto com a de destruidor de reputações. O estudioso Jean Sareil afirma que “Personne n´a jamais flatté aussi bien et avec autant de succès que Voltaire” (“Ninguém bajulou tão bem e com tanto sucesso quanto Voltaire”.) Essa sua fama diabólica cresceu ao longo do século XIX. Para os românticos, o autor de “Cândido” não passava de um “apóstolo da impiedade”, de uma “serpente venenosa”. Alfred Musset referia-se a Voltaire como o homem do “hideux sourire” (“sorriso hediondo”). Essa caracterização tem um fundo de verdade, contudo, não podemos esquecer que a adulação das pessoas próximas ao Rei e o humor corrosivo do autor foram armas incisivas contra a intolerância. Não por acaso, Paul Valéry afirmou: “O sorriso hediondo de Voltaire acabou com muita coisa hedionda no mundo”.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

A grande cientista Émilie du Châtelet

Foi durante pesquisa para uma biografia sobre Einstein que David Bodanis deparou-se com uma nota de rodapé sobre a contribuição de Émilie du Châtelet para o desenvolvimento do moderno conceito de energia. A curiosidade de Bodanis levou-o a estudar a vida dessa desconhecida e descobriu que Émilie tivera, na verdade, papel fundamental para a ciência no século XVIII. Filha de um cortesão de Luís XIV, Gabrielle Émilie Le Tonnelier de Breteuil - marquesa du Châtelet (1706-1749), teve educação primorosa, aprendera latim com o pai, conhecia bem Horácio, Virgílio e Lucrécio. Muito cedo, descobrira que seu pendor era para a Física e para a Matemática. Graças ao convívio com grandes pesquisadores e à sua disciplina militar, Émilie enfrentou penosas questões científicas. Tomou a si a tarefa de traduzir os Principia de Newton para o francês, além disso, fez o esforço de transpor os complicados cálculos do físico inglês para uma forma mais moderna de cálculo. Em 1737, Émilie escreveu Dissertação sobre a natureza e a propagação do fogo. Nos próximos dias, voltarei a postar textos sobre essa mulher extraordinária.

sábado, 5 de março de 2011

Continuação da carta de Lobato a Rangel

Eis a sequência da carta datada de 27 de junho de 1909. Nela, Lobato faz planos com o amigo mineiro e revela sua faceta de crítico literário:
Tenho examinado os últimos livros de contos aperecidos. Nada como quero. O último foi o de Veiga Miranda, que a imprensa elogiou. Uns contos ordeiros, exatamente nos moldes de todos os outros- coisa feita, não saída. Espécie de presepe literário. Aqui um boizinho. Aqui um riozinho. Aqui uma porteirinha para casar com a casinha lá adiante. E agora, uma mulherzinha com um homenzinho de olho nela etc...
O nosso livro de contos será o contrário disso. Todo cheio de novidades, na forma e no entrecho. E nada de amorecos e adulteriozinhos de Paris. Isso já fede. Será como os de Kipling - com paisagem, árvores, céu, passarinhos, negros...Eu gosto muito de negros Rangel. Parecem-me tragédias biológicas. Ser pigmentado, como é tremendo! Já leste A mais bela história do mundo? Impossível novela mais rica de horizontes. Do mesmo grande Kipling traduzi para o Minarete o conto um fato. Prodigioso. História de uma serpente do mar que em consequência de uma erupção vulcânica submarina reventou lá no fundo e veio à tona, escabujando no desespero da "falta de pressão atmosférica", espécie de falta de ar . As serpentes vivem nas grandes profundidades e portanto sob tremendas pressões; trazidas à pressão menor da tona, elas estouram, soltam os pulmões pela boca etc...Não pode haver pintura mais fiel, mais d´après nature dessa serpente marinha que Kipling viu , apesar da serpente do mar ser apenas uma crendice de marinheiro! Ou Kipling ou Maupassant. Não há maiores. Tenho aqui Boule de suif, La main gauche, Clair de lune, Mlle. Fifi, Sur l´eau...Por falar neste: havia uma tradução portuguesa naquela coleção romântica, com uma moça na capa, lendo um livro à luz do lampião, lembra-se? Traduziam o Sur l´eau por Vogando, e parece que foi o único Maupassant que o Tito leu. Sempre que azava ensejo, lá vinha ele: "Como diz Maupassant no Vogando...".
O Ana Karenina, que li agora, ponho-o junto de Guerra e Paz, Lírio do vale de Balzac e Le rouge et le noir de Stendhal. Como é grande Tolstói! Grande como a Rússia.
Mas, voltando ao assunto: a ideia de associar-nos é ótima, porque um escora o outro; dois Bêbados de braços dados têm menos probabilidades de cair. Até no namoro é assim. Quando em meninotes passávamos pela janela da namorada junto com um companheiro, lá passávamos firmes, sem tropicar em pedras inexistentes. Mas se passávamos sozinhos e Ela estava com alguma outra, a orelha nos avermelhava, quente, vinha uma comichão suada na cabeça, o passo perdia o ritmo normal, tornava-se, como dizem os ingleses, Self conscious- e ou a bengalinha nos caía da mão ou era inevitável a topada na pedra inexistente. Se sairmos os dois no mesmo livro, vamo-nos aguentar um ao outro maravilhosamente.
Pode mandar o Queijo. Quanto ao espiritismo, não me preocupo. William Crookes, aquele inglês dos raios catódicos, fez experiências rigorosas e concluiu pela existência duma força mal conhecida que atua de várias formas, e a que ele, por comodidade, dá o nome de força psíquica. Foi do que li o que mais me satisfez- e nisso fiquei, como em filosofia física fiquei na Evolução e na filosofia estética fiquei naquele maravilhoso Vade mecum? Vade tecum! do Nietzsche. Essa força psíquica só agora começa a ser estudada pelos homens de educação científica; antes negavam-na. Outro físico inglês, Oliver Lodge, tem coisas ótimas a respeito, e estuda tais fenômenos com o mesmo rigor com que estuda os fatos físicos. A palavra "sobrenatural" empregada em relação a essas coisas me parece imprópria. O fato de não sabermos uma coisa não a exclui da natureza ou não a põe sobre a natureza. É apenas um aspecto da natureza que ainda não conhecemos. Um dia esses fatos psíquicos, hoje considerados sobrenaturais, estarão conhecidos e fichados, como tantos da química. A "ação de presença", por exemplo, sempre existiu e era um mistério- algo sobrenatural; hoje a ciência dá-lhe o nome de catálise e utiliza-a para efeitos práticos. O feiticeirismo da Idade Média, o ocultismo, o espiritismo, o esoterismo, o eterno pendor do homem para o Mistério, tudo isso implica a existência de qualquer coisa que coexiste ao nosso lado, que certas pessoas pressentem etc. É o au-delà, o "outro mundo", como o mundo da luz solar é "outro-mundo" para o cego, apesar de ser apenas um aspecto um aspecto deste nosso mundo para os que enxergamos. Um sexto sentido parece que vem vindo, como foram vindo os nossos atuais cinco sentidos- e virá um sétimo, um oitavo etc. Evolução. E cada novo sentido nos descortinará um "outro mundo". O médium, que é senão uma criatura em quem o sexto sentido está se denunciando? Um dia todos teremos esse sexto sentido- e adeus, sobrenatural! Um dia os compêndios de física trarão o capítulo novo da metapsíquica, como os compêndios de hoje trazem o capítulo novo da termodinâmica.
O radium, por exemplo. Não nos desvendou todo um "outro mundo"? Há agora o quarto estado da matéria- o radiante. Haverá o quinto- o metapsíquico...
Ando a regalar-me com Macaulay nos Essays. É uma espécie de Rui Barbosa da história e da crítica- e por falar: leu o discurso do Rui saudando o Anatole France? Este o classificou de mais uma bela página acrescentada à literatura francesa- e não o disse por amabilidade porque é mesmo. Rui é positivamente grande como o mar.
E a Careta? Já viu? A melhor coisa que no gênero humorístico já apareceu entre nós. Finíssima.
A minha Marta está considerada a menina mais bonitinha de Areias - e não vai nisto babo de pai. Reação da Natureza. Pai feio, filha bonita. E onde foste cavar esse nome Nelo que deste a teu menino? Mau nome, como o do Lino. Presta-se aos trocadilhos do Tito: "Viu o Lino? , "Descasque esse abacaxi, Nelo". Não louvo o Nelo, como também não louvo o teu "Caim de Nazareth". Caim ainda passa; mas Nazareth lembra nariz constipado . Nome que se associa no som a certas palavras é feio. Não posso ouvir falar em "Corina" sem lembrar do mictório. "João" me sugere "sabão", "feijão". "Cornélio" lembra "corno" etc. Os pais escolhem mau os nomes dos filhos e muitas vezes perpetuam no mundo pequeninas tragédias. Conheço um "Medardo". Uma criadinha lá da casa de meu sogro, sempre que esse Medardo aparecia (era cliente), atrapalhava-se e anunciava-o com o "r'' fora do lugar...
Chega. Adeus.
Lobato

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

The King´s Speech: belíssimo filme de Tom Hooper




Em 1935, as doenças que afligiam George V (Michael Gambon) agravaram-se. O rei morre em janeiro de 1936, quando David (Guy Pearce), primeiro na linha de sucessão, torna-se Eduardo VIII. Seu reinado dura apenas onze meses. Com efeito, Eduardo pretendia casar-se com a americana Wallis Simpson, duas vezes divorciada, algo impensável para a monarquia. Assim, em um discurso proferido em 12 de dezembro de 1936, declarou: Não ignorais as razões que me levaram a renunciar ao trono. Deveis crer em mim quando afirmo que cheguei à conclusão de que seria impossível suportar o pesado fardo de tantas responsabilidades, sem o auxílio e o apoio da mulher a quem amo. Eduardo abdicava da coroa a favor do irmão. Albert Frederick Arthur George, duque de York, será sagrado rei em 12 de maio de 1937 com o nome de George VI, vivido de forma esplêndida por Colin Firth. O rei, porém, era tímido e pressentia as crises que enfrentaria, não se sentindo à altura de sua missão. Há muito sofria de um problema crônico que quase o transformou em misantropo: a disfasia. O envolvente The King´s Speech dirigido por Tom Hooper revela as tentativas de Bertie (apelido do rei) para curar ou, ao menos, melhorar a gaguez, daí a importância de Lionel Logue ( com atuação impecável de Geoffrey Rush), o terapeuta da fala. Os momentos que o monarca e o plebeu passam juntos constituem soberbas cenas de amizade. Excelentes também as atuações de Elisabeth Bowes-Lyon como a rainha Elisabeth (a rainha-mãe ) e de Timothy Spall como Winston Churchill. Vale a pena ver e rever. ana luiza reis bedê.





















segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Projetos de Lobato e Rangel

Transcrevo a primeira parte da carta de Monteiro Lobato ao amigo Godofredo Rangel, datada de 27 de junho de 1909

Das muitas belas coisas propostas não vacilo em aceitar o plano do livro de contos a dois- mas com leves modificações. Em vez de fazê-lo a nossa custa procuraremos editor. Há no Rio um Garnier. Quem sabe se esse Garnier...Com boas cunhas Rangel, acho que podemos interessar um editor. Só em caso contrário editar-nos- emos por conta própria. Minha ideia é que quem se edita por conta própria faz uma coisa antinatural-como entre as mulheres o parir pela barriga, na cesariana. Mas, seja lá como for, proponho esses pontos: 1) Não haver pressa; 2) Apurarmos a forma, de modo que os críticos mais exigentes não descubram nem uma lêndea de pronome mal colocado; 3) Ler um a produção do outro, comentar, criticar, sugerir, vetar; 4) As duas partes conforma-se-ão com as sentenças, mas ficam com o direito de rejeitar o veto; 5) A fatura material do livro será perfeita; prosaboa impressa em papel de embrulho vira carne-seca da fedorenta; champanha em cane ca de lata vira zurrapa. Sempre imaginei o nosso primeiro livro assim ao tipo daquela edição Guillaume do Robert Helmont com desenhos de Myrbach. Podemos lançar mão da bagagem já publicada, depois de devidamente brunida. E também enfiar coisas novas.
Eu ando com umas ideias a me perseguir como certas moscas em dia de calor. Espanto-a e ela volta. Um conto. Um farol com dois faroleiros. O mar sempre a bater nas pedras no enrocamento da torre. A vida solitária dos faloreiros- o isolamento. As aves noturnas que se deuxam cegar pela pela luz dos holofotes e se espedaçam contra os vidros. O objetivo é pintar o mar e as sensações de faroleiros isolados, mas para justificar a pintura ponho um drama qualquer- um mata o outro ou algo assim. Faz uma semana que a ideia me está germinando lá num canteiro da cabeça, qual piolho interno.
Sou partidário do conto, que é como o soneto na poesia. Mas quero contos como os de Maupassant ou Kipling, contos concentrados em que haja drama ou que deixem entrever dramas. Contos com perspectivas. Contos que façam o leitor interromper a leitura e olhar e olhar para um amosca invisível , com olhos grandes parados . Contos-estopins, deflagradores das coisas , das ideias, das imagens, dos desejos, de tudo quanto exista informe e sem expressão de ntro do leitor. E conto que ele possa resumir e contar a um amigo- e que interesse a esse amigo.







sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Câmara de Torturas, aliás Gabinete de Investigações


Para as explicações detalhadas dos motivos que levaram à prisão de Monteiro Lobato e os meses que passou na Casa de Detenção, remeto aos dois primeiros capítulos do segundo volume de Monteiro Lobato: Vida e Obra de Edgar Cavalheiro.
Às 2h30 do dia 20 de março de 1941, o escritor encontrava-se em seu escritório na União Jornalística Brasileira quando lhe entregaram o mandado de prisão preventina. Seu delito: crime contra a Segurança Nacional. Tratava-se de uma resposta de Getúlio Vargas à luta de Lobato para que o petróleo fosse explorado por brasileiros, e uma vingança pessoal pelo fato do escritor ter recusado o convite de sentar-se ao lado do presidente em um jantar em Campinas.

Casa de Detenção, 4, 6, 1941
Dr. Fernando Costa:
Os presos da cadeia não podem ir cumprimentá-lo pela grande vitória que, se enche os "soltos" de alegria, mais ainda o faz a estas pobres vítimas do esquecimento e da crueldade humana. Há aqui cerca de 600 detidos para os quais o seu advento do Poder em São Paulo significa o sol depois de uma semana de chuva. Não pense que isto é engrossamento, porque é justamente por não ter esse hábito que estou aqui entre eles.
É verdade. Os presidentes de S. Paulo se sucedem e nenhum se lembra de corrigir as falhas horrendas dessa coisa monstruosa que se chama Polícia de S.Paulo, com a sua Câmara de Torturas, que se chama Gabinete de Investigações. Foi preciso que eu viesse passar uma temporada aqui entre as vítimas para me convencer da hedionda realidade.
Inda ontem entraram os moços do furto dos 5 mil contos- e quem os viu chegar sentiu engrouvinhamento do coração. Eram espectros que se arrastavam, tontos, bobos, idiotizados- tantas foram as torturas que lhes infligiram no famoso e infame Gabinete. E entre os presos comuns tenho visto sinais horríveis- mãos com cicatrizes de rachaduras feitas pelas palmatórias do Gabinete. O preto Cotrim, um inocente absolvido pelo Júri, mas mesmo assim aqui detido há dois anos, mostra a quem quer ver os colhões rachados pela borracha do Gabinete. E há o suplício de meter cunhas de taquara nas unhas. E há os que ficaram ou foram postos nus nos ergástulos de lá, cubículos de metro quadrado ou pouco mais, onde tinham de ficar de braços para o ar para caber e depois, baldes d´água em cima, e vidros de amoníaco. Não tem fim, Fernando, a lista dos horrores desse nefando Gabinete. E há o suplício das muquiranas, em que esses nojentos bichos criados no Gabinete quase devoram os pacientes. Um homem aqui da administração me disse textualmente de uma de suas vítimas: "quando o rapaz chegou aqui, semimorto, a roupa que tiramos do corpo dele mexia-se no chão- andava..."
Muitos chegam e vão para a enfermaria- para morrer.
Ora, não me consta que haja alguma lei autorizando a aplicação de torturas no Brasil. E se não há essa lei, então esses atos constituem monstruosos crimes da polícia. A solução tem que entrar neste dilema: ou a polícia suspende as torturas, ou então o Estado Novo as legaliza. Ficar assim como está é que é impossível, no futuro Governo de Fernando Costa. Nós, seus amigos e amigos de S. Paulo, mesmo presos, nos esforçamos para que a coisa mude- e eu me faço voz de todas estas miseráveis vítimas. Pelo amor de Deus, Dr. Fernando, reforme este tumor maligno que já vem durando muito.
Há um corregedor encarregado de fiscalizar as prisões, mas costuma avisar com uma semana de antecedência as suas visitas, de modo que encontra tudo perfeito. No dia do Corregedor ir espiar o Gabinete, os carrascos transferem para aqui carradas de vítimas- que voltam logo que o Corregedor sai e assina a ata de que tudo estava perfeito.
Uma visita sua, inesperada, absolutamente inesperada ao Gabinete há de revelar coisa, apesar de estarem eles práticos em fazer como as casas de tavolagem clandestinas, em que as roletas e tudo o mais desaparecem como por encanto, quando a polícia chega.
Eu dou por bem aproveitada a minha prisão, só pelo fato de me permitir verificar o medievalismo da polícia de S.Paulo.
Aqui na Detenção já é coisa outra. O diretor que saiu, Dr. Sílvio Sampaio, era um homem de bem e profundamente humano. Acabou com o terrível regime anterior, dum tal Cata Preta, que ao que ouvi aqui era carrasco integral. E o medo desta pobre gente aqui já tão desgraçada, é que esse carrasco volte. Mas um Fernando Costa jamais admitirá semelhante coisa.
Não tem grande importância este ou aquele diretor de um serviço qualquer aí fora. Mas tem uma importância imensa a escolha acertada dum diretor de prisão, porque dele depende a felicidade de 600 desgraçados e das respectivas famílias. Isto vai grifado, porque é da maior relevância. A solução ideal aqui é a efetivação do atual diretor interino, Dr. Nelson Gomes, um homem que pela humanidade, bom critério, honestidade e espírito de justiça se impôs à minha admiração. Não há ninguém aqui, desde o último preso até o último vigilante, que não pense deste modo quanto ao Dr. Nelson. Se ele for efetivado, a Casa de Detenção se sentirá feliz e neste setor a administração Fernando Costa não terá dores de cabeça. A unanimidade pró Dr. Nelson é absoluta.
O Queirós está ao par de tudo e é seu amigo. Não é dos tais que só são amigos do interventor. É amigo do homem Fernando Costa, e não do Interventor Fernando Costa. Atenda-o sempre como uma das bocas de verdade, que não errará.
Os homens que sobem pela primeira vez ao Governo, deslumbram-se e deixam-se envolver pela malta dos bajuladores- e esquecem os verdadeiros amigos, os que dizem a verdade ali no duro. Mas não creio que isso se dê com quem já foi governo várias vezes e, portanto, aprendeu a conhecer a safadeza dos homens.
Faço votos, portanto, para que não erre-porque se o Ademar (1) tinha direito de errar na apreciação da entourage, visto como era marinheiro de primeira viagem, um homem já com tantas passagens pelo Poder não tem. E não errará, enquanto puder distinguir os verdadeiros amigos das muquiranas da amizade, enquanto distinguir um Queirós dum puxa-saco qualquer. Adeus, meu caro amigo. E viva S. Paulo.
Do
Monteiro Lobato
Recomendo também o texto "A Prisão de Monteiro Lobato" de Hilário Freire e Waldemar Medrado Dias, disponível no site da Ordem dos Advogados do Brasil-Seção de São Paulo. http://www.oabsp.org.br/institucional/grandes-causas/a-prisao-de-monteiro-lobato

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Não esperem livrar-se dos livros!

Umberto Eco, Jean-Claude Carrière.
Não contem com o fim do livro
Tradução de André Telles
Editora Record, Rio de Janeiro, São Paulo-2010, 269 p.

Há mais de uma década, Umberto Eco depara-se com a questão: a internet acabará com os livros? Em 2003, por ocasião da reinauguração da biblioteca de Alexandria, o escritor respondeu aos apocalípticos que o livro continuaria existindo. O fato de a mídia alardear seu fim, explicou Eco, serviria, sobretudo, para criar notícia, já que não se costuma anunciar algo bom, como "a saúde do presidente da República continua ótima".
Recentemente, as dúvidas relativas à extinção do livro mais uma vez vieram à tona e inspiraram uma instigante conversa entre Eco e Jean-Claude Carrière que resultou em Não contem com o fim do livro, lançado em maio no Brasil. Nesta obra, o escritor italiano e o dramaturgo francês dialogam sobre as consequências da tecnologia no cotidiano dos pesquisadores, professores e leitores leigos de maneira geral, assim como as vantagens e dissabores dos excessos de informação, o destino das bibliotecas e a relação do poder com a literatura, para citar alguns temas tratados.
Eco argumenta a favor do livro, afirmando que o suporte para a leitura não pode ser apenas o computador, porque ao cabo de algumas horas, "os olhos viram bolas de tênis"; além disso, com esta máquina, não podemos ler deitados na cama ou em uma banheira. Pior ainda, ficamos na mão se faltar eletricidade . O escritor defende que o "livro é como a colher, o martelo, a roda ou a tesoura. Uma vez inventados, não podem ser aprimorados". Obviamente que também reconhece a importância da tecnologia, por exemplo, no caso de um magistrado que leva as 25 mil páginas de um processo na memória de um e-book, suporte, todavia, inviável para ler Guerra e Paz.
Sem desconsiderar os benefícios dos recursos eletrônicos para os trabalhos intelectuais, somos invariavelmente acometidos pela angustiante necessidade de aprender o manejo de novos softwares. Há algumas décadas, dedicavam-se meses para aprender a andar de bicicleta, mas esta bagagem, explica-nos Eco, era válida para sempre; hoje em períodos curtíssimos, vemo-nos obrigados a abandonar determinadas tecnologias por serem obsoletas. Confrontamo-nos, assim, com a diluição do presente.
Se pensarmos nas utilidades da internet, não há como negar a facilidade de obter informações. Ora, aqui um cuidado se impõe: a seleção. Eco frisa que cultura, digna desse nome, reside na capacidade de sabermos empregar nossos conhecimentos. Recebe, neste ponto, o apoio de Carrière, que esclarece a diferença entre saber e conhecimento na língua francesa: "O saber é tudo com que somos entupidos e que nem sempre tem uma utilidade. O conhecimento é a transformação de um saber numa experiência de vida".
Ainda sobre o tema da "seleção", o dramaturgo francês ressalta que somos educados por meio de filtragens feitas antes de nós; nada impede, porém, que as contestemos. A título de exemplo, cita que os maiores poetas franceses, em sua opinião, não constam dos manuais de literatura. Trata-se dos barrocos libertinos do século XVII: Jean de Lacépède, Jean-Baptiste Chassignet, Claude Hopil e Pierre de Marbeuf.
Eco e Carrière, ao longo do diálogo, não se limitam a apontar prós e contras da tecnologia, de um lado e a ressaltar as prerrogativas do livro, de outro- os autores contam-nos a saga do livro, falam-nos de suas paixões, suas manias e preferências.
Não esqueceram de José Mindlin- que nos deixou 28 de fevereiro último - e sua odisseia para obter um dos exemplares da primeira edição de O guarani. De fato, o eminente bibliófilo tinha descoberto que um diletante europeu possuía o tal exemplar. Marcaram um encontro em Paris e após três dias de discussões no Hotel Ritz, Mindlin voltou a São Paulo observando os detalhes da recente aquisição. Ao chegar a sua residência, notou que tinha esquecido o exemplar no avião. Curiosamente, a constatação da perda não provocou nenhuma frustração, tampouco a restituição do objeto perdido resultou em alívio -consistindo o encanto do colecionador nas andanças para obter o que deseja.
Interrogados sobre que sonhos nutriam como amantes de livros, Eco respondeu que gostaria de possuir um exemplar da Bíblia de Gutenberg, também apreciaria se encontrassem as tragédias perdidas citadas por Aristóteles na Poética, Carrière ficaria felicíssimo se descobrissem um códice maia.
Os autores comentaram sobre as marcas deixadas pelas leituras, sobre as interpretações que as obras recebem ao longo dos anos e como influenciam nossas opiniões. Ressaltaram, igualmente, os embaraços domésticos e o momento vivido como fatores relevantes na construção do sentido do que lemos. Eco oferece-nos um bom exemplo do alcance das sucessivas interpretações sobre o destino de uma obra: "Hamlet não é uma obra-prima por suas qualidades literárias; é porque ela resiste a diversas interpretações que se tornou uma obra-prima. Às vezes basta pronunciar palavras insensatas para passar à posteridade".
Quando passam a discutir sobre livros antigos como testemunhos do passado, ambos demonstram desconfiança. Muitas vezes, esclarecem-nos, não são os livros que se equivocam, mas os delírios interpretativos dos leitores que contribuem para os mais gritantes equívocos. Aconselham, então, a não reconstruir o passado a partir de uma única fonte.
As bibliotecas não guardam somente tesouros do saber, mas igualmente bobagens colossais. Neste caso, os autores são enfáticos ao afirmar que não deveríamos valorizar somente os monumentos do espírito, mas também a burrice- muito mais difundida, diga-se de passagem, e altamente reveladora de uma determinada sociedade. Após inúmeras histórias para ilustrar a diferença entre o imbecil, o cretino e o estúpido, Eco e Carrière admitem que estamos sempre à beira de dizer uma estupidez. Chateaubriand, por exemplo, escreve sobre Napoleão, de quem não gostava: "É, com efeito, um grande vencedor de batalhas, mas afora isso, o pior general é mais esperto que ele". Outro exemplo digno de constar em um Dicionário da burrice é a observação do monsenhor Quelén a um público de aristocratas, em Notre-Dame, durante a Restauração: "Não apenas Jesus Cristo era filho de Deus, como era de excelente família pelo lado da mãe."
A variedade de assuntos, a agudeza e a erudição dos bibliófilos prendem o leitor da primeira à última página, um bálsamo para os amantes dos livros. Jean-Philippe de Tonnac, no prefácio, lembra a constatação de Frollo em Notre Dame de Paris de Victor Hugo: "Ceci tuera cela" ("Isto matará aquilo"). Tranquilizemo-nos, o livro eletrônico tão cedo não matará o livro.
(Ana Luiza Reis Bedê)

quinta-feira, 1 de julho de 2010

La Débâcle de Émile Zola


A guerra franco-prussiana de 1870 inspirou romances de diferentes categorias. Georges Darien retratou-a de forma sarcástica em Bas les coeurs! Jules Vallès, levado por seu engajamento, nos revela sua própria experiência em L´insurgé. Maupassant em L´Angelus, romance inacabado, trata do episódio. A obra, porém, de maior fôlego sobre o tema foi sem dúvida o antepenúltimo livro do "Rougon-Macquart", La Débâcle.
Zola documentou-se antes de escrever sobre a derrota do exército francês. Roger Ripoll confirma que o iniciador do naturalismo consultou diversas testemunhas do conflito. No século XIX, a história não representava mais simplesmente um pano de fundo para os romances, mas se tornava protagonista. Zola preconizava que a criação romanesca e a progressão dramática estariam a serviço da história. Em seu Les romanciers Naturalistes, afirma que o romancista afeta "[...] disparaître completement derrière l´action qu´il raconte. Il est le metteur en scène caché du drame. ( "[...] desaparecer completamente atrás da ação narrada. Ele [o romancista] é o diretor de cena escondido atrás do drama.").
Sabemos como em La Débâcle, Zola aproveitou para desenvolver as ideias darwinianas, adotando, igualmente, a famosa teoria do determinismo humano. Fiel à sua teoria naturalista, o líder do grupo de Médan esboça quadros terríveis do cotidiano da vida dos soldados, ricos em minúcias, a fim de demonstrar que tudo se passou da forma descrita. Assim como Daudet e Maupassant, Zola tratou igualmente da questão do patriotismo. Em La Débâcle, um camponês vendia carne podre aos soldados inimigos: "[...] quand on pense qu´il y a des gens qui racontent, comme ça, que je ne suis pas patriote!...Hein? qu´ils en faasent autant, qu´ils leur foutent donc de la carne, et qu´ils empochent leurs sous...Pas patriote!...mais, nom de Dieu! J´en aurai plus tué avec mes vaches malades que bien des soldats avec leurs chassepots".
Do ponto de vista das personagens, os soldados alemães não passariam de "sacrés mangeurs de choucroute", muito semelhantes fisicamente, altos, loiros, de olhos azuis e agindo como autômatos, além de capazes das maiores crueldades.
Se o alvo privilegiado constitui o exército alemão, Zola não poupa o alto escalão do exército francês, cujos comandantes não tinham sequer o mapa da França, já que não acreditavam em uma invasão inimiga, apostando que as lutas se desenrolariam, sobretudo, em solo alemão. Embora mostrasse seus horrores, Zola acreditava que a guerra era inevitável e perfeitamente coerente sob a ótica do evolucionismo.

domingo, 20 de junho de 2010

Alfred Dreyfus: o culpado ideal


No final do século XIX, os franceses têm uma obsessão: reconquistar a Alsácia e a Lorena, que haviam perdido para a Prússia em 1870. Mais do que isso, precisavam recuperar o orgulho ferido durante a ocupação alemã, uma das mais humilhantes impostas a uma nação outrora vencedora. Em 1894, uma ocasião de vingança anuncia-se: os serviços de contra-espionagem francês descobre um documento endereçado ao adido militar da embaixada da Alemanha em Paris. Neste documento, encontram-se informações secretas sobre o material de artilharia francesa. Não interessava ao exército organizar um longo processo a fim de descobrir o responsável pelo vazamento das informações: era necessário encontrar rapidamente um culpado.
Com base na assinatura do dossier comprometedor, concluiu-se que a letra era do capitão Dreyfus, um jovem oficial de 35 anos, judeu, alsaciano, ou seja, aos olhos dos contemporâneos, praticamente um alemão. Feita a análise grafológica, o capitão Dreyfus foi preso por espionagem e declarado culpado de alta traição. Embora protestasse inocência, o capitão foi condenado à degradação e à deportação na Guiana, no forte da Ilha do Diabo. A família Dreyfus, convencida de sua inocência, busca auxílio político para obter a revisão do processo, porém nada consegue (continua).

domingo, 13 de junho de 2010

Vive la France! Alphonse Daudet e a guerra franco prussiana de 1870


O autor dos Contes du Lundi (1873) não se limitou a tratar somente da guerra de 1870, escreveu também sobre seus desdobramentos, como a perda da Alsácia e da Lorena, além da rebelião da população parisiense que resultou na Comuna.
Na maior parte das vezes, Alphonse Daudet ressalta o aspecto patético dos dramas vividos: deixando de lado o que se passa nos campos de batalha, prefere as anedotas sobre a invasão. Assim, a repercussão da guerra no campo e na província é privilegiada.
No conto "La dernière classe" ("A última aula"), por exemplo, M. Hamel ministra sua última aula de francês aos pequenos alsacianos, ciente de que no dia seguinte o curso seria recomeçado em alemão. Não falta humor nesta comovente história sobre a guerra , como se constata no balanço de consciência feito pelo mestre que se sentia culpado por seus alunos conhecerem mal a língua francesa: Moi-même, n´ai-je rien à me reprocher?
Est-ce que je ne vous ai pas souvent fait arroser mon jardin au lieu de travailler? ("Eu mesmo não teria nada a me reprovar? Não mandei vocês várias vezes regar meu jardim em vez de estudar?").
Um tom zombador insinua-se na história do coronel Jouve, um cuirassier (soldado de um regimento de cavalaria) do Primeiro Império que é fulminado pela notícia da derrota de Napoleão III. Este conto ilustra bem a confiança do povo no exército imperial, parecendo-lhe inverossímil a hipótese de um fracasso. A neta do coronel Jouve, para poupar-lhe a saúde, engana-lhe afirmando que os franceses haviam invadido a Alemanha. O velho combatente, porém, descobre a verdade ao escutar a marcha triunfal de Schubert sob o Arco do Triunfo.
Talvez, o mais tocante exemplo de patriotismo-no melhor sentido do termo- de Contes du Lundi seja o do conto "L´enfant espion": um senhor envergonhado vai devolver o dinheiro que seu filho ganhou traindo os interesses da França.
Constatamos que as maiores demonstrações de amor ao país vêm de pequenos empregados e camponeses, os menos informados da sociedade e o mais influenciados pelo governo imperial - a repercussão da guerra, nessa parte da população, ofereceu ao autor- uma grande riqueza de temas. Alphonse Daudet, a seu modo, foi um crítico mordaz da guerra franco-prussiana, sem se render ao pessimismo do grupo de Médan.